domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Futuro



Ser alguém de meu tempo.

Quando a única exigência ética é a realidade: recuso os discursos, as literaturas, e as músicas me são um vício recriminável quanto o assassínio.

Não estar presente a todos os atos da vida? Quando a única morte é o irreconhecimento, identifico a cada um, atenta.

Olho para todos: sim, eu faço a jura que os vejo: assino ao atestado:

"existem!"


... e não me reconheço.





( No meu leito de morte, suspirando direi:
 "Nunca matei ninguém."

 Mas quem ouvirá?  )




 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A noite e depois.


«Amor, ch’al cor gentil ratto s’apprende,
prese costui de la bella persona
che mi fu tolta; e ‘l modo ancor m’offende.


Amor, ch’a nullo amato amar perdona,
mi prese del costui piacer sì forte,
che, come vedi, ancor non m’abbandona.


Amor condusse noi ad una morte.
Caina attende chi a vita ci spense»


- Francesca da Rimini
(D. Alighieri - Inferno, Canto V )




Ele estava lá.


Longe o domingo,

enlaçado a outra,
felizes.





Então o consolo possível para este sofrimento impossível
é ver isto precisamente como o que é:


a   felicidade  alheia  .





Como maldizer a felicidade?


Plus d'aimer un homme. Il faut aimer tous les hommes....

                                                                     Mais que amar um homem,
      é preciso amar a humanidade inteira.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

. . .


Toca o telefone a sua sirene como o gongo no intervalo:
o tempo acabou.

A vida, este intervalo, entre duas eternidades passou.

Lourdes Pedroso deu seu último suspiro às 12h04 da madrugada.

Nenhuma badalada se ouviu,
por sorte.

Minha avó não era estrondosa.

Despeço-me à janela: é ela nesta noite estrelada.





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Orquidario

 
 
-- Qual a cor que você mais gosta de sabonete ?

-- Branco, detesto sabonete colorido.

-- Só lavo minha boca com rosas.

-- Brancas? Se a aleta é pedra lapis-lazuli, é melhor amarelas: impede o hálito de ficar verde. No mais, se a maçã....

-- Aff, não invente teorias: tudo é claríssimo !

-- Oras, e só por isso, lispectoriano............. ?

-- Não...





... não só por isso.